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A Velha Menina

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A Velha Menina

 

     Ao dobrar da esquina da nossa rua, havia a loja do Sr. Meyer, onde se coomprava louças, vidros e brinquedos. O avô Markus e eu raras vazes passávamos sem entrar: junto da caixa, o Sr. Meyer, gordo e balofo, com uma corrente de ouro dupla a sair-lhe do bolsinho superior do colete e enroscando-se no último botão a contar de baixo. Com esta corrente bamboleando sobre a pança, a mão do Sr. Meyer só deixava de brincar ao responder ao caloroso aperto de mão do meu avô.

     "Que há de novo, Sr. Meyer?"

     E o Sr. Meyer, cuja mão voltava a divertir-se coma corrente de outo, contava uma das suas muitas anedotas. O avô dava gargalhadas, esfregava as mãos de gozo, batia nas costas gordas do Sr. Meyer:

     - Muito boa, muito boa.

     Desconcertada, eu olhava do rosto bonito do avô para a cara bochechuda do Sr. Meyer e cismava por que é que  os grandes riam de coisas tão diferentes das que faziam rir as criança. [...]

     Em frente da loja do Sr. Meyer, numa casinha pintada de amarelo, no meio de um jardim cercado por grades, morava a bruxa da aldeia, a velha menina Stefanie Khon. [...]

     Magricela, sempre de preto, de cabeça achatada, cabelo oleoso e olhos esbugalhados: foi assim que Stefanie Khon se me gravou na memória. Ao mesmo tempo que os meninos escarneciam dela, temiam-na. O avô explicava-me que ela não era bruxa, mas uma boa velhinha que, além do mais, pertencia à "nossa gente" e por isso eu nunca devia participar em brincadeiras de mau gosto.

    Numa tarde, estava eu a brincar com um grupo de meninos no terreiro da Igreja, quando Alfred, o filho do padeiro, propôs fazermos uma visita á bruxa. Corremos pela rua abaixo. Eu bem queria ficar para trás, mas contra a minha vontade fui correndo com os outros, que, chegados à casa da bruxa, começaram aos gritos:

     - Bruxa má! Bruxa má! Sai cá para fora! Mostra-te à gente!

     Senti-me miserável. Não abri a boca. Desejava estar longe, muito longe, e, no entanto, fiquei como que pregada ao chão. A bruxa saiu da casa limpando as mãos molhadas ao avental.

     - Canalha infernal! - ralhou. - Se não se põem daqui para fora...

     E pegou na vassoura encostada às grades, agitando-a no ar. Recuámos uns passos. Depois, Ina recobrou ânimo:

     - Estão a ver? Estão a ver? A vassoura!

     - À meia-noite voa na vassoura! Para o Blochsberg!Uuuuuuuu! - gritou Alfred.

     Nesse momento, alguém passou na rua e dispersou-nos com modos enérgicos.

Ilse Losa, O Mundo Em Que Vivi

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